Vivo a experiência do mundo monocromático. Há tempos que saio de casa com a mesma emoção com que escovo os dentes. Se opto por ficar em casa o sono aparece oferecendo uma noite de sonhos intensos, e eu acordo, acordo, acordo até o despertar da luz do dia.
A rotina não me intriga, mas me acolhe. Evita a tentativa de planos futuros que não estou conseguindo criar. Minha energia está estagnada no momento presente, contida em meu corpo. Sinto que a qualquer momento explodirá, se não se dissipar.
Amigos, amigas, todos tentam me dizer que eu posso ver as cores quando quiser. E eu continuo sentindo a opacidade dos tons.
Comecei a tomar remédio, provavelmente não por acaso chamado Exodus. Proporcionará então o que promete o nome? Vou conseguir realmente emigrar para a fase das cores novamente?
Meu pé quer se levantar, mas não sabe em que lugar quer pisar. Poderia ser no amarelo, no laranja, verde, azul. Mas para mim, neste mesmo instante, esses caminhos não existem, nem na minha imaginação.
Alguns dias opto por sorrir, rir. Outros dias não.
A vida tem aspectos tão arrebatadores, que acabaram comigo. Agora vivo na indiferença, na sombra, para não ter que me entregar à vida de novo.
Viver intensamente, cada momento arrebatador, fazia com que eu me sentisse realmente viva, com todas as cores que se possa imaginar.
Eu sei disso.
Mas a sombra me puxa lentamente. Vou ficando dormente. A mente preenchida pela falta de sentido. E mais uma vez vou ficar em casa, assistir algo na t.v. para distrair, e o sono aparece oferecendo uma noite de sonhos intensos, e eu acordo, acordo, acordo até o despertar da luz do dia.
"Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais tranquilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino." (Rilke, "Cartas a um jovem poeta")
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